Governo do Distrito Federal
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19/04/13 às 19h55 - Atualizado em 11/10/17 às 16h44

O novo dono da Casa de Mendes

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Publicitário coleciona peças históricas de Brasília e bens de Oscar Niemeyer

Homem simples, avesso à exposição midiática e sempre discreto, Oscar Niemeyer possuía entre seus bens um local especial onde descansava da rotina do Rio de Janeiro, a Casa de Mendes. Bem reservada, no municio de Vassouras (RJ), região do Vale do Café, a residência é parte da história do arquiteto e da criação de filhos e netos. Hoje, o lugar não pertence mais a família de Oscar, mas a um admirador que há anos coleciona objetos raros daquele que é inspiração para muitos profissionais no mundo.

A Casa de Mendes é um projeto de 1949 de Niemeyer na região que está completamente fora do trajeto da mídia ou de curioso. A construção é uma resposta a um pedido do pai, que gostaria de ver toda a família reunida em um raio curto de distância. Com a vida agitada de artista conhecido internacionalmente, Oscar acabou se desfazendo da propriedade. Esquecida e abandonada no meio do nada, a Casa voltou a ser reconhecida pelo publicitário Carlos Barroso, uma verdadeira biblioteca quando o assunto é a vida e obras do arquiteto.

“A residência é citada em mais de 30 livros que contam a história dele. Em 29 publicações, ela está classificada como demolida, tão pouco o cuidado com a conservação ao longo desses anos”, conta o publicitário aposentado. “Ele mesmo dizia que era a casa preferida. Frequentava como casa de campo para fugir da impertinência das pessoas.”Antes de falecer, Oscar Niemeyer tomou ciência da compra da propriedade e ainda tentou seduzir o novo dono para tê-la de volta. Mas Carlos Barroso tem outros planos.

Para os próximos quatro anos, ele pretende reformá-la e transformá-la em um grande museu da arquitetura modernista brasileira. Abarcando espaço, o aposentado pretende integrar seis obras do arquiteto e projetar um roteiro inédito, incluindo um memorial, uma capela, duas casas, uma escola e uma estação de águas, todo em 200 quilômetros de distância. “Oscar merece isso. É a única casa de campo, a única residência aberta ao público. É um compromisso que eu tenho com ele e comigo”, afirma.

Para contextualizar a rota não faltarão lembranças. Além da residência, Carlos possui mais de seis mil objetos raros que coleciona em sua casa, também no Rio de Janeiro. Entre as raridades, o álbum da formatura, a cama, a charrete da família e outros pertences de Niemeyer. “São 26 anos de busca, onde gastei muita sola de sapato, recursos próprios e muito tempo. São coisas que você morre e não vê iguais. Não em outro”, disse. Muitas descobertas foram feitas em leilões, feiras, sucatas, brechós e nas mãos de carroceiros.

Brasília desperta a paixão pela arquitetura e pelo mestre

Carlos Barreto tinha 40 anos quando Brasília foi reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1987. Foi o primeiro conjunto moderno a receber o título da organização. “Os primeiros bens tombados era igrejas seculares. De repente, a Unesco reconhece um sítio com apenas 27 anos. Isso me chamou atenção de tal maneira que comecei a estudar Brasília, foi quando me apaixonei por Oscar”, conta o publicitário.

Segundo Carlos, a admiração surgiu com a constatação de que Brasília foi o ápice da arquitetura modernista brasileira. “Ninguém tinha feito uma cidade daquele jeito. O Brasil vivia uma época totalmente rural, à margem do que acontecia ao redor. De repente, o mundo inteiro voltou os olhos para Brasília”, lembra.

Como um grande atrativo para a nova paixão, Barroso passou a pesquisar todo o trabalho que esteve por trás da construção da cidade. “Hoje, com toda essa tecnologia, duvido que seriam capaz de fazer uma cidade em menos de quatro anos, como foi feito naquela época”, comenta.

Na coleção específica sobre a cidade, há o primeiro catálogo telefônico da capital brasileira, com 500 números. Também está conservada a programação da primeira regata realizada no Lago Paranoá, com todo o plano de divulgação, disposição de lugares das autoridades e outros detalhes, bem como um dos planos desenhados para Brasília, que perdeu o prazo de entrega e nem chegou a concorrer com Lucio Costa.

“Digo que tudo isso foi um conjunto. Brasília não seria a mesma sem Oscar Niemeyer, Juscelino Kubitschek, Athos Bulcão, Lucio Costa, Israel Pinheiro, Burle Marx, Bernado Sayão”, declara. “Por isso, minha coleção é sobre a arquitetura modernista brasileira, mas com foco em Brasília e em Niemeyer.”

Esta semana, Carlos Barroso está na cidade para as comemorações do aniversário de Brasília. Todos os anos, o publicitário segue a mesma rotina: pega o carro e viaja quilômetros para acompanhar a programação cultural da Capital Federal. Entre museus e livrarias, Carlos dá preferência às exposições, lançamentos de livros e a revisitar os pontos turísticos. “Já conheço 42 obras de Niemeyer na cidade. A cada ano, pretendo conhecer uma nova”, adianta. A passagem pela festa também serve para atualizara coleção de fotos, publicações e outros matérias que um dia irão compor o museu na Casa de Mendes.