Governo do Distrito Federal
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20/10/21 às 14h05 - Atualizado em 20/10/21 às 14h05

Artesanato gera renda, desenvolvimento econômico e transforma vidas no DF

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Projeto Oficina do Saber, coordenado pela Setur-DF, promove a cadeia produtiva por meio da qualificação do artesão local e de mecanismos que permitem a facilitação e a diversificação da comercialização dos produtos

 

O artesão Daniel da Silva na Oficina do Saber, na Setur-DF. Foto: Renato Braga/Setur-DF

 

O artesanato traduz a alma de um povo, por ele o artesão revela usos, tradições e costumes. Os artesãos de Brasília contemplam em seus produtos a pluralidade cultural que é a cidade, tendo em vista que para cá vieram pessoas de todos os estados.  Ao unir essa multiplicidade às formas, cores e características locais, surge um produto do turismo com alto valor cultural agregado. Outro aspecto importante é a capacidade de gerar renda, desenvolvimento econômico e de transformar a vida das pessoas.

 

O crochê salvou Daniel Martins da Silva (35). O mineiro de Carmo do Paranaúba (MG) cansou da vida de erros, que o levou algumas vezes ao sistema carcerário, e encontrou na produção de peças de crochê a dignidade e esperança, que já acreditava não ser merecedor. Aos 21 anos, da segunda vez em que se encontrava apenado, um colega de cela o ensinou os primeiros pontos da arte. Assim, pediu para a família lhe levar barbante e agulha e começou a ensaiar o início: o ponto correntinha. Fazia 100, depois 200, desmanchava e repetia tudo de novo até ficar perfeito. Se a excelência não é um modo de agir, mas um hábito, Daniel se aperfeiçoou.

 

artesão Daniel da Silva na Oficina do Saber, na Setur-DF. Foto: Renato Braga/Setur-DF

 

Até encontrar a salvação, o aprendiz de artesão fez de tudo: trabalhou na roça, foi pedreiro e até garçom, ainda na cidade natal. Decidiu então, há quatro anos, vir para a capital federal. Nas ruas de Brasília, onde mora, faz e vende suas peças: tapetes, forros de mesa, suplat e tudo que aprendeu a fazer com perfeição. Foi essa perfeição que o levou até o Programa Oficina do Saber da Secretaria de Turismo do DF (Setur-DF). Por meio do programa obteve a Carteira Nacional do Artesão e, pela primeira vez na vida, foi enxergado por uma política pública.

 

“A Secretaria de Turismo é tudo para mim. Não esperava que um órgão fosse se preocupar comigo e abrir meu horizonte. Já tinha perdido a esperança e a crença no ser humano. Hoje tenho esperança de viver. A carteira do artesão me deu dignidade, abriu as portas para mim. Voltei a sonhar e estou me reintegrando à sociedade”, relatou o artesão Daniel.

 

Oficina do Saber

 

A mestre artesã Roze Mendes ministra a Oficina do Saber no Assentamento Marielle Franco. Foto: Ana Nascimento/Setur-DF

 

A Oficina do Saber é coordenada pela Setur-DF, que faz a gestão do artesanato, desde 2019, sob as diretrizes do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) do Ministério da Economia. Vinculado à Coordenação do Artesanato, o programa visa à promoção da cadeia produtiva por meio da qualificação do artesão local e de mecanismos que permitam a facilitação e a diversificação da comercialização dos produtos.

 

A mestre artesã Roze Mendes e a artesã Verônica Brilhante executam o programa nas regiões administrativas e rurais do DF. Até o momento, 140 artesãos foram qualificados na Oficina do Saber, considerando assentamentos e acampamentos rurais, grupos e artesãos individuais nas RAs.As profissionais têm a atribuição de avaliar, qualificar e inscrever o beneficiário no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab), que oferece a emissão da Carteira Nacional do Artesão (CNA). O Sicab registra até o início de outubro mais de 12 mil artesãos inscritos, somente no Distrito Federal.

 

Até a emissão da CNA, os candidatos a artesão precisam passar por um processo de avaliação das técnicas e do material utilizados na produção do artesanato, qualificação e profissionalização. Essa fase acontece nas oficinas itinerantes, que percorrem todo o DF, ou no ateliê na secretaria. Roze e Verônica ministram as oficinas, não só ensinando as técnicas e como usar a matéria prima extraída do cerrado, mas abrindo os horizontes com informações sobre mercado e empreendedorismo.

 

Segundo Roze Mendes, um dos objetivos do projeto é qualificar o candidato a artesão profissional para o mercado de trabalho. “Nós sabemos que tão importante quanto aperfeiçoar a técnica profissional é ensinar o conceito de mercado. Por isso, ensinamos que o trabalho tem que ser competitivo e tem que caracterizar a referência e a identidade cultural de cada um”, explicou.

 

A Oficina do Saber chegou ao Assentamento Marielle Franco, em São Sebastião, por meio do Programa Ação da Mulher no Campo, da Secretaria da Mulher do DF. No local, estão sendo atendidos pelo artesanato em torno de 25 pessoas, dentre homens e mulheres. As aulas são ministradas em um espaço montado especialmente para a capacitação. A líder comunitária do assentamento, Janaína Romualdo Elisiário, informa que as 38 famílias do assentamento estão em situação de vulnerabilidade e como o grupo ainda não tem espaço definido para a produção agrícola, a qualificação no artesanato será uma forma de desenvolver economicamente as famílias.

 

Oficina do Saber no Assentamento Marielle Franco. Foto: Ana Nascimento/Setur-DF

 

A Oficina do Saber veio na hora exata porque, no princípio, foi uma ideia mais para poder distrair as pessoas. Só que as tutoras Roze e Verônica estão vindo com tanto empenho e elas não estão vendo mais só como uma forma de se distrair e de unificar o grupo, elas estão enxergando uma oportunidade de melhorar as finanças domésticas. Toda vez que a Secretaria de Turismo vem aqui no Assentamento, ela está trazendo também um pouco mais de empolgação para esses artesãos. Quando elas vêm aqui e dão essas palestras, quando voltam encontram eles com a autoestima lá em cima, cheios de ideias novas. Tenho certeza que a gente vai abrir uma porta grande lá para poder escoar esses produtos que estão sendo feitos aqui e dar uma dignidade melhor aqui para as nossas famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social”, afirmou Janaína.

 

A moradora Natália da Silva Almeida (28) trabalha como diarista há alguns anos. Aprendeu a fazer peças de artesanatousando material sintético. Com os ensinamentos da Oficina do Saber,ela aprendeu a usar produtos do Cerrado, disponíveis na natureza. Atualmente, trabalha com pó de serragem, macramê e flor de bucha. Natália tem três filhas, Ane da Silva Azevedo (11), Alice da Silva Azevedo (10) e Aylada Silva Azevedo (7). Para ela, o trabalho da Setur-DF é a primeira oportunidade que a comunidade está tendo de ser vista e olhada por meio de políticas públicas.

 

Natália da Silva Almeida durante a Oficina do Saber no Assentamento Marielle Franco. Foto: Ana Nascimento/Setur-DF

 

“A oficina está ensinado a ver com outros olhos a natureza, o Cerrado. Antes, a gente tinha que comprar todos os materiais, agora o material principal está disponível perto da gente. As aulas estão sendo boas para eu me aperfeiçoar e trabalhar melhor. A gente fazia mas sem prestar muita atenção no acabamento e a mestre Roze ensina a gente a melhorar. Estou me sentindo uma pessoa importante como artesã, empoderada. Está mudando a minha vida. Meu sonho é viver da terra e do artesanato. Quero criar e sustentar minhas filhas com o artesanato. Meu marido está fazendo a oficina também, só que ele faz vasos. Eu vou tirar a carteira do artesão, pois quero ter mais chances de vender meu artesanato nas feiras e exposições”, declarou Natália.

 

Artesanato

 

Exposição de artesanato da Casa de Chá. Foto: Renato Braga/Setur-DF

 

O artesanato de Brasília segue as diretrizes do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), responsável pela elaboração de políticas públicas em nível nacional. Para a execução, conta com a parceria das Coordenações Estaduais de Artesanato, responsáveis pela intervenção e execução das atividades de desenvolvimento do segmento.

 

No Distrito Federal, esse papel é desempenhado pela Setur-DF. Em julho deste ano, foi sancionada a Lei de Fomento ao Artesanato (Lei º 6.924/2021), que instituiu as diretrizes para a política distrital de fomento ao artesanato. Assim, o DF passou a ter um programa local específico para qualificar, desenvolver e promover a atividade como instrumento de trabalho e empreendedorismo.

Muitas diretrizes da política distrital de fomento ao artesanato já são desenvolvidas pela Secretaria de Turismo do DF. Destacam-se a realização de feiras e exposições para a venda de produtos artesanais, integração de iniciativas relacionadas ao artesanato e à troca de experiências, aprimoramento de gestão de processos e produtos artesanais, realização de oficinas e ações educativas para aprimorar o trabalho artesanal, mapeamento do setor artesanal, por meio de estudos técnicos e do cadastro do artesão em sistema próprio.

 

Secretária de Turismo do DF, Vanessa Mendonça, e artesãos expositores da Loja do Artesanato no Pátio Brasil Shopping. Foto: Cláudio Gerber/Setur-DF

 

Entre primeiro de janeiro de 2019 a 30 de setembro deste ano, a Setur-DF emitiu, presencialmente, 2.379 Carteiras Nacionais do Artesão. O documento é emitido pela Secretaria e possibilita ao profissional participar de todas as feiras das quais a instituição participa, no Distrito Federal ou em outras cidades.

 

Os números atualizados apontam para 12,4 mil artesãos cadastrados no Sicab. Desse total, existem 4.557 artesãos com carteiras ativas que tiveram um faturamento, de janeiro 2019 até setembro deste ano, de quase R$3 milhões, em 104 eventos, incluindo rotas comerciais, termos de fomento e lojas colaborativas. Esse desempenho estimula a economia criativa do DF.

 

No tocante à promoção e estruturação, merecem destaque as Lojas do Artesanato em parceria com o Pátio Brasil Shopping e com o Alameda Shopping, por meio de cessão de Comodato. A seleção é feita por edital, que seleciona 30 artesãos que, para concorrer ao processo seletivo, precisam ter a CNA. A Setur-DF também disponibiliza o Centro de Atendimento ao Turista (CAT) na Casa de Chá como ponto para exposição e venda de artesanato. A seleção também é feita por edital.

 

Secretária de Turismo do DF, Vanessa Mendonça, durante o encontro com artesãos da Loja do Artesanatodo Pátio Brasil. Foto: Cláudio Gerber/Setur-DF

 

“Desde o início da nossa gestão, trabalhar diuturnamente para assegurar locais para a venda desses produtos é uma meta prioritária. Conseguimos as Lojas do Artesanato localizadas nos shoppings Pátio Brasil e Alameda e em todas as ações e eventos apoiados pela Secretaria de Turismo, a condição é a garantia de dar um espaço o artesão expor e vender o seu trabalho”, declarou a secretária Vanessa Mendonça.

 

As ações da Setur-DF visam oferecer recursos para incluir os artesãos da cidade na cadeia produtiva, oferecendo os mecanismos necessários para a geração de renda e autonomia financeira pela atividade.